Travessia

bordado

Ontem, depois de muito tempo, durante um abraço no sofá você encostou a cabecinha no meu peito e disse: “mamá!”, com aquele sorriso de sempre, mas diferente. Eu falei “lembra, filho, que você mamava! era muito gostoso mesmo”. Daí você disse que queria ver o peito. Abaixei com dificuldade a parte de cima do vestido, e você disse “quelo mamá esse peito”, apontando o direito. Veio com a boca e eu achei que fosse morder como das últimas vezes que antecederam seu desmame, mas você “mamou” mesmo por dois segundos. Quis ver o outro peito de novo. Quis mamar o peito direito de novo. Eu disse “a mamãe amava quando você mamava, mas agora você cresceu e não mama mais porque você já consegue comer macarrão, bala…! O Tito, quando nascer, vai mamar, mas não vai conseguir comer essas coisas ainda”. Daí você pensou alguma coisa, sorriu, desceu do colo e foi brincar. Entendi que o que eu tinha falado havia sido desnecessário, uma necessidade minha e não sua.

Hoje acabo de te deixar na escola e, pela primeira vez em quase dois meses, você não chorou na despedida.  A gente estava comendo morangos no quintal, conversando com a Manô, brincando de fazer bambalalão com o Capitão América Grande que você ganhou do seu pai ontem. Aí a mamãe pegou a bolsa, levantou, te deu um beijo e disse “tô saindo, filho, volto já!”. Esperei você chorar, te pegar no colo de novo, te beijar e dizer que te amo e já volto, mas dessa vez você se manteve ali de pé, firme, sem chorar. Com uma expressão diferente de todas as outras, que eu não sei descrever como era. Um jeito novo de olhar, um jeito crescido de olhar, um jeito menino de olhar, um jeito sério de olhar. Fixou o olhar em mim até eu ir embora, e tudo parecia se movimentar em câmera lenta nessa hora. Você ali parado, o abraço cúmplice da Manô sabendo a importância daquele momento para nós dois. Fechei a porta, abracei seu pai e, como a Masha quando fica aliviada por ter conseguido salvar o Urso de ficar preso no trilho do trem, chorei. “Ele não chorou, ele não chorou!”.

Esses dois episódios encheram meu coração de uma alegria de primavera. Daquelas alegriazinhas que a gente planta, rega, protege da chuva, põe no sol, tira do sol, e parece que nunca vai crescer, e parece que o sol inclemente ou a chuva embravecida vão estragar tudo, mas de repente quando você menos espera ela brota, e cresce, e cresce, até virar uma daquelas flores que a gente para para apreciar no meio do caminho, um descanso pro olhar.

Filho, você é um menino que veio pra cá com uma missão especial. Sei disso desde o princípio. Desde o momento em que te carreguei na barriga e em que você saiu de dentro de mim, escorregando debaixo da mesa da cozinha na véspera do Ano Novo, com aquele choro forte e os olhinhos vivos. Desde quando no segundo dia de vida você já sorriu, no terceiro já ficava solto no trocador movimentando com força os braços e as pernas e nos primeiros meses de vida estava constantemente inquieto, de um jeito que eu não entendia mas hoje eu sei – você queria fazer e ainda não podia. Queria se movimentar, queria puxar, queria ir, queria saber.

Nunca conheci um ser humano mais interessado no ser humano do que você. Você quer saber o nome de todo mundo que cruza seu caminho e qual o seu papel no mundo. Se eu estou cansada e tento desviar o assunto, você insiste “como chama essa ‘mulhers’, o que é que ela faz?”.  Isso inclui também todos os seres vivos e não vivos, cachorros, formigas, faixas no asfalto, uma pecinha de nada no blindex do banheiro. Com pouco mais de um ano e meio, você já quer nomear tudo. Quando você ganha um brinquedo, você não se fixa só nele, você quer entender como se chamam as outras partes da caixa. Você sabe o que é o papelão, o plástico, o elástico.

Quando você não sabe alguma coisa, me olha de um jeito lindo e diz “mamãe, me ensina?”. Quando eu faço algo do jeito que você julga ser errado, você diz “não é assim, mamãe, eu te ensino!”. Quando o papai está fazendo alguma coisa que despertou seu interesse, você pede “eu ajudo!”. Você sempre soube se expressar muito bem, “expressivo” foi um dos primeiros adjetivos que usei para caracterizar você desde que você nasceu e começamos a nos conhecer e construir nossa relação de filho e mãe. E até hoje é assim. Quando você quer chorar e eu falo “filho, não chora..”, você diz “eu quelo chorar!”. Quando você está assistindo televisão e sente medo de algum personagem, diz “com medo desse homem. Troca, mamãe?”. Você tem uma consciência das coisas que é incomum de se ver num ser que chegou aqui há tão pouco tempo. Seu pai sempre fala também da sua alegria, que nos parece rara. Outro dia, feliz da vida subindo uma rampa na Praça das Corujas, você me olhou extasiado, “Vem, mamãe, sobe! É muito gostoso!”.

Você é um menino com super-poderes que as circunstâncias da vida vão te dizer quais são e, entre dias de sol batendo na janela e neblina atrapalhando a visão, você vai achar dentro de você as respostas que te ajudarão a entender como usá-los. Deve ser por isso que você tão cedo se viu fascinado pelo universo dos super-heróis: para conhecer melhor a si mesmo. “Huck forte, Homem-Aranha sobe, Capitão-América voa”. E junto com eles você consegue carregar tratores, escalar prédios da altura do Cristo Redentor, voar como passarinho. Mágicos, Papai Noel, fadas, tudo isso te encanta.

Eu te gestei, eu te amamentei, eu te carreguei no colo, quando você está no meu colo e eu estou te embalando e cantando pra você dormir e você me abraça daquele jeito eu sinto que somos um só de novo. Bento, sinto por você um amor de uma extensão e de uma profundidade que nada no mundo daria conta de explicar, porque não é algo que eu tenha adquirido ou que esteja agregado a mim, esse amor é parte de mim, é como meus olhos, minha boca ou minha barriga.

Mas hoje sei que você é um indivíduo separado de mim, especialmente diante desse jeito novo de olhar no portão da escola. E essa é a maior alegria que uma mãe pode sentir, ver o filho pleno e enraizado em si mesmo, conquistando independência. Mas, ao mesmo tempo, são despedidas. A semente não é mais semente agora é broto, o broto não é mais broto agora é flor, e daqui a pouco essa flor linda vai ser árvore, e vai começar todo o ciclo de novo. Viva!

E  enquanto te observo crescer, a vida, tão generosa comigo, me deu de presente um outro filho para gestar e amar incondicionalmente da mesma maneira e de uma maneira completamente nova, que vamos descobrir e será só nossa. Meu Tito, pequeTito meu, que remexe agora na minha barriga feito peixe grande. Minha calma, meu jardim, meu refresco de laranja, minha fruta madura, meu pastel de Belém. Meu bebê que daqui a pouco tempo sai do quentinho de dentro pro abraço quentinho de fora.

Você vem vindo, de um jeito tranquilo e relaxado você vem vindo. Saiba que sua mãe está completamente relaxada e aberta pra te amar e te receber no tempo e do jeito que for pra ser. Neste momento não sinto ansiedade, não sinto medo, não sinto dor, não sinto culpa. Que essas palavras fiquem registradas aqui e me ajudem a atravessar todos os desafios que eu já espero enfrentar e os outros que eu não espero e virão.

É engraçado porque, olhando as fotos de nós três, eu, seu pai e o Bento, de repente dou falta de alguma coisa, as fotos parecem incompletas. É você que já está meio dentro meio fora. De manhã quando seu irmão acorda e começa a bagunça do dia, um chororô pra ir logo “embaixo” brincar, Bento, tem que esperar o papai e a mamãe fazerem xixi e coisa e tal, você acorda junto, já começa a mexer forte, já faz parte da algazarra. Seu canto no nosso quarto já está quase pronto: o bercinho, o colchão, o armário com as roupas cheias de pelo da desgraçada da Abacaxi que consegue entrar na gaveta, o porta-sapatos com os gorros e paninhos, as luzinhas esperando ser penduradas.

Durante toda a gravidez, enquanto te acarinhava, te sentia e conversava com você, fiz tudo que meu coração mandou para amaciar a sua chegada para o seu irmão, que ainda era tão bebê. Quando soube da sua vinda, Bento só tinha 1 ano e três meses. Ainda era um bebê de peito, de colo de mãe. Hoje, aí está, um menininho independente, que come o que gosta com prazer, que passa horas muito bem longe dos pais, que expressa alegria, dor e qualquer outro sentimento com admirável clareza. Não foi mágica. Não foi sem dor. Não foi sem erros. Mas foi real e foi do caralho de emocionante.

E agora, filho, agora sinto que posso somente usufruir esse resto de tempo em que somos completamente um só. Se nessa mesma fase na gravidez do seu irmão eu sentia um frio na barriga como se a tão esperada festa estivesse chegando, agora eu sinto que já estou na pista dançando. Um jazz, uma música soft, talvez ‘Brindo’ do Devendra. Não por acaso penso nessa música, que escutei muitas vezes voltando da escola com o B. no carro dormindo serenamente no banco de trás, pensando em você. E qual a minha surpresa agora quando vou pesquisar sua letra e me deparo com isso:

” Brindo a este amor, un amor tán raro

Brindo a este amor, un amor tán claro

Brindo a este amor, un amor derepente

Brindo a este amor, un amor tán diferente

Como la orsita en el mar

Un elemento nuevo pa jugar

Brindo a este amor que me llena de esperanza

Y brindo a esa luz allá en la distancia

Venga Colibrí despierta a la diosa oh

Que canta-te a mi su canción preciosa

Brindo a todo lo que quiero dar

A todo que está punto a empezar

Brindo a este amor que nunca se demora

Sólo el hospital está abierto a esta hora

No pienso en ti

sólo te siento

pasando por mi

como un dulce viento”

A vida é perfeita, meus três meninos. Duvidem disso, que eu vou relembrá-los sempre.

1,2, feijão com arroz

celular nana galaxy setembro 2015 639

Se você fosse uma música, seria aquela que diz: “I can see clearly now the rain is gone”

Ou qualquer uma com o maior alto astral

Meu menininho, meu segundo, meu caçula, meu pequeTito:

Você é raio de sol, é cachoeira, é sandália de dedo, é o arroz do nosso feijão. Você é chá gelado de limão com hortelã, é o primeiro dia cheio da Primavera

Se você fosse um super-herói, seria aquele que veste a capa da Surpresa. Primeiro porque você chegou de surpresa, com seus pais cheios de vontade de ter um segundo rebento um dia, mas sem que a gente pudesse precisar como foi que aconteceu naquele dia. Você simplesmente naturalmente chegou, como aquele amigo que nem precisa tocar a campainha e já vai sentando e se servindo de bolo e café.

Eu soube que era você numa manhã de domingo, quando acordei me sentindo estranha e enjoada como já há semanas acontecia, mas com um sentimento diferente. Antes de ir ao balcão da farmácia e pedir o teste de gravidez, acariciei minha barriga instintivamente por cima daquela camisa macia de seda azul que eu adoro, e nessa hora tive tanta certeza de que estava grávida que nem precisaria de comprovação.

Porque quando você se anunciou, eu já era mãe. Eu já sabia ser mãe (desse jeito eternamente em construção que é a maternidade). Eu já sabia que era “de verdade”, tinha um serzinho completamente completo dentro de mim naquele exato momento, e dentro deste pequeno ser, como dentro de um pequeno frasco de óleo essencial, já estava concentrado todo o amor que eu tenho em mim. Eu já te amei grande, já te amei como se no colo, como se no peito, já apartei suas cólicas, já te vi dormindo na almofadinha no sofá da sala, você já se materializou tão logo eu soube de você, Bebê Surpresa.

Bebê Surpresa também porque quando todos tinham certeza de que você era uma menina, no primeiro ultrassom o médico já cantou: “90% de chance de ser um menino”. Meu Deus, mais um menino!

Nome de menina a gente já tinha, e de menino? Antes de ficar grávida pela segunda vez, achávamos que se tivéssemos mais um filho e ele fosse um menino, se chamaria Miguel. Mas não, não, você não era um Miguel. Seria um Francisco, um Noé? Sebastião. Você era um Sebastião. Para mim, com apelido Tito. Só que alguma coisa não encaixava em Sebastião, os irmãos mais velhos não gostavam… e aí um dia seu pai acordou e, sem que soubesse do meu plano do apelido, disse: “E Tito? Acho que ele é o Tito. Que engraçado quando um nome chega assim pra gente”.

Você rapidamente virou Tito, com “T” no meu colar “J e B”, as três iniciais gravadas numa barraca popular na Festa do Peão em Barretos.

Eu tive vontade de cantar pra você e, dessa vez, sem vergonha, cantei. Eu tive vontade de dançar com você no chuveiro, e dancei. Eu tive vontade de desenhar pra você, flores, muitas flores, e desenhei. E o B. desenhou por cima, e achei tudo lindo.

Eu tive culpa por não ter a mesma calma e a mesma dedicação em horas de pensamento e elucubrações durante a sua gravidez que eu tive com seu irmão, por em vez de pensar no tipo de parto, na alimentação balanceada ou no que acontece em determinada semana da gestação passar tempo pensando em como seria a adaptação do seu irmão a sua chegada, e trabalhando para que o Bento se sinta o mais confortável possível em relação a ela.

E você, numa nice. Te saquei, seu Tito. Nos dias mais atribulados, em que passo muito tempo sem conversar com você ou parar um pouco para acariciar a barriga, na hora de dormir você dá aquele chutão quando pergunto “ei, tudo bem aí, filho? Puxa, que correria… Tá tudo bem aqui, é que seu irmão hoje está gripado, sabe, não está muito legal..” e você poft, dá um chutão, como quem diz, “mãe, relaxa, cuida das suas coisas aí fora que aqui dentro eu tô fortão”.

Generoso, generoso. Calmo. Vivo. Conectado. Distraído.

Você chegou me ensinando tanta coisa, filho. Me ensinando que o Divino nunca erra a hora, como disse a nossa querida amiga e doula Márcia. Me ensinando a confiar mais ainda no poder do fluxo, porque desafios que eu considerava enormes como rochas de repente ganharam peso de nuvens. Me ensinando a liberar seu irmão para conquistar o mundo, que já é tão dele desde o instante em que nasceu. Me ensinando sobre a importância de cultivar alguma autonomia, de achar espaço para a prática de alguma atividade que me dê prazer. Me ensinando a confiar ainda mais na minha capacidade de te ajudar a aportar nesse mundo, eu e o seu pai.

Bento te chamou durante muito tempo de “Bastião”, até que explicamos que mudamos seu nome de Sebastião para Tito, daí ele começou a te chamar de “Bastião Tito”, e agora está na fase de não querer muito saber. Já teve a fase de falar que o irmãozinho tá na “barriga mamãe”, já teve o tempo de passar longo tempo abraçado à barriga, como se estivesse tentando te escutar. Você, por sua vez, quase sempre chuta quando ele está dormindo no meu colo, e eu acho isso tão gostoso!

Você escolheu vir na mesma época que seu irmão veio, quiçá podem nascer até no mesmo dia, dois anos depois. “Vai ver era pra serem gêmeos, mas o segundo veio depois”, alguém me disse. E fez algum sentido pra mim. Às vezes acho que você e o Bento serão complementares, unha e carne, companheiros de toda uma vida, mas vai ver isso é só sonho de mãe.

Frequentemente me esqueço em qual semana estamos, mas agora me lembrei que hoje começa a 26. Minha barriga já tá enorme, ainda não comecei a ioga, ainda não aprendi a bordar Tito na almofadinha, o B. ainda não tá indo sozinho ao Quintal dos Quintas. Mas é como você me ensinou: cuida das suas coisas aí fora que aqui dentro eu tô fortão.

E, com a graça dos deuses, dentro de alguns bons meses não terei mais tempo de degustar o pão francês em pedaços miúdos cheios de manteiga, intercalados por longos goles no café com leite quente, nem de dormir mais de três horas seguidas. Comerei chocolate e qualquer espécie de tranqueira sempre às escondidas, como se fossem drogas ilícitas , mas serei a mais feliz das criaturas com meus dois rapazes dizendo “mamãe, olha o c’que eu fiz!” e o maior de todos, o seu pai, me olhando lá do campo de futebol, com os olhos apertados de orgulho, “olha o que nós fizemos!”.

alegria de raiz

nana vo e b

Tem alegria da gente que é aprendida, que de tanto conversar com uma tristeza a gente conquista. Tem alegria da gente que é um presente, uma surpresa, coisa como esbarrar com aquele zé querido que a gente nunca mais viu, ou pedir o sabor de sorvete certo pr’aquela hora, alegria de sorte. E tem alegria da gente que tem raiz, começou num sem fim de tempo, e é dessa alegria que quero falar com você hoje, vó: daquela que herdei de você.

Alegria em forma de farinha, ovo, açúcar, leite, manteiga e fermento. Fazer bolos. Nunca compramos um bolo na minha família, comprar bolo onde já se viu, é uma espécie de afronta, é como na família dos Paraíbas, minha segunda família, família  emprestada, comprar-se churrasco pronto ou qualquer prato salgado pronto. Aqui, doce se faz em casa e se come com gula antes que alguém coma o seu pedaço por você.

Bolo de aniversário, merengue italiano, doce de abóbora, doce de batata doce, bruxinha, brigadeiro. Ninguém faz doces como você, vó. Às vezes me pergunto por que é que gosto tanto de comer e de fazer doce, mas a resposta eu sei que sei que sei, e você me lembrou disso essa semana. Para nós dessa família o doce é uma manifestação de amor.

*

Aconteceu de estarmos em margens opostas do rio, vó, já há algumas chuvas. A gente não consegue se ouvir direito nem se tocar. Às vezes conseguimos gritar e ouvir uma a outra, às vezes alguém faz a ponte e fala-pra-ela-que,e a gente se comunica. Mas não é igual aquela conversa molhada no sofá de dois anos atrás em que te falei estou grávida, vó, e nos abraçamos, cúmplices, você dizendo você vai ser muito feliz, minha neta.

Pode ser um defeito, e acho mesmo que é, mas não consigo negar um pedacinho de doce ao Bento, e vibro com alegria dele diante de um cubinho de chocolate, ele abre a boca e come desinteressado e depois que o chocolate derrete me olha dum jeito encantado e abre a boca pedindo mais. E me arrepio de ver essas receitas de bolos adoçados com uva passa.

*

Nesses últimos meses muitas vezes me perguntei cadê você, vó,e imagino que você deve ter se perguntado o mesmo cadê você minha neta. Tentamos nos encontrar nas conversas, nos presentes, nos eu te amos de sempre antes do beijo-tchau dos telefonemas, mas quando a gente está cada uma dum lado do rio não é por palavras que a gente se entende.

Essa semana não te vi do outro lado do rio, e por um instante achei ter te perdido de vista pra sempre. Fiquei pensando e pensando como é que eu poderia te reencontrar, porque a verdade, vó, é que eu posso parecer durona-tudo-bem-eu-como-em-pé-mesmo, mas eu sinto uma baita falta de ser sua neta. Porém você foi muito mais rápida e sábia e agiu primeiro.

– Sua avó vai fazer um bolo de aniversário para você no sábado. Não precisa cantar parabéns, não precisa ir na casa dela, ela só disse que vai fazer, vai fazer de qualquer jeito – disse a mãe, quase um mês depois da data de aniversário.

Não era uma pergunta, não era um pedido, era um presente. E eu aceitei.

Mil palavras não dariam conta de dizer o que você disse com esse bolo, vó. E hoje, depois do almoço, quando ele deu uma garfada e me olhou e disse “nossa, tá MUITO bom”, eu lembrei de onde vem minha alegria de fazer bolo pra ele e pra todo mundo que eu amo e prezo: vem de você. Quando alguém me faz bem, eu sinto uma vontade imediata de fazer um bolo pra essa pessoa, de que sabor você gosta?

Lembrei como e por que estamos ligadas, e me senti próxima de você como se há muito tempo a gente não. Não importa se você vai por ali e eu por aqui, nós duas somos mulheres que transbordam afeto na forma de bolos e doces. E você faz carinho na tartaruga, um bicho que não te agrada apesar de “ser uma boa pessoa”, só porque meu filho te pediu pra fazer.

*

Comendo praticamente de colher seu bolo molhado de bem-casado hoje me senti abraçada, me senti amada, me senti importante.

Por isso e por essa doce e inestimável herança de alegria, mesmo sabendo que essas palavras não têm o dom de fazer carinho como farinha, ovo e açúcar, obrigada, vó.

Nós e as panelas

Nunca vou esquecer as nossas primeiras panelas. ​A gente tinha acabado de juntar as trouxinhas e não tinha um puto no bolso, só compramos geladeira e fogão por uma jogada de sorte em que consegui aprovar um cartão de crédito com limite suficiente para parcelar ambos em doze vezes.
*
A primeira de todas foi uma frigideira que minha mãe comprou pra mim nas Lojas Americanas e resiste até hoje. Mas frigideira é frigideira, panela é panela.
*
As primeiras, mesmo, foram duas panelas pretas com pintinhas brancas que compramos na barraca de panelas da feira de sábado da Mourato Coelho.
R$ 90 as duas, cabo firme, pesadas, belíssimas, ainda são nossas duas panelonas principais de risotos, macarrões e legumes cozidos.
Lembro tanto do que senti quando levamos essas duas panelas pra casa, eram só duas e panelas de feira vá lá, mas senti como se fosse um conjunto inteiro Le Creuset, porque afinal tinham um peso maior que o do dinheiro ou da ostentação, tinham o peso de um sonho.
Partilhar uma vida com você.
*
Soube que era você no instante em que te vi. Existe um jeito de dizer isso sem soar piegas? Creio que não.
Ficava vermelha que nem tomate italiano novinho quando a cinco metros de distância de você, a meio metro meu coração estourava igual pipoca.
Quando te beijei pela primeira vez foi brigadeiro: como se tivesse feito isso a vida toda.
Familiar, irresistível e soberano
*
Nossa vida mudou depois da panela de pressão que a Michelle nos deu, junto com a receita de músculo com polenta.
*
Nossa vida mudou de tantas formas, sobretudo há 11 meses, quando nasceu nosso incrível filho B.
Quase sete anos juntos, baby
passaram voando, como esse último ano, uma coisa assim meio salmão fritando na panela
*
Somos diferentes igual catupiry com goiabada, queijo com doce de leite, catchup e mostarda,
diferentes estranhamente iguais.
*
Ah, a panela de arroz! Comprada na mesma barraca onde compramos as duas primeiras. Cinza com pintinhas pretas. É aquela coisa, o arroz não fica bom se não fazemos nela.
*
Você me deu os dois maiores presentes da minha vida: minha liberdade e meu filho.
*
Você nunca erra o tempero
Você me acorda com tapioca, bolinho de chuva e ovos mexidos mesmo quando tá cansado ou chateado comigo;
compartilhamos o mesmo senso de gastronomia e estético, coisa rara,
gostamos da média do mesmo jeito, e deixamos exatamente a mesma quantidade sobrando na xícara.
você me acha parecida com a mulher de Blade Runner,
você me achou linda parindo,
você usa a boina que era do meu nonno,
você perdoa os reacionários da família,
você é tremendamente atraente e sexy.
*
Nunca te falei isso mas acho seu defeito mais irritante, o fato de você ficar nervosinho à toa, muito engraçado.
E nunca vou esquecer que quando o B. era recém-nascido você se divertia trocando a fralda dele de madrugada.
Aquela gargalhada compartilhada ontem na cama, abafada no travesseiro pra não acordar o filho, foi Take me As I am.
*
Sei que tem faltado um pouco de Metal Heart no no nosso Cotidiano
mas…
você é a cebola com alho da minha vida,
a Maria Izabel reserva da minha adega,
você é meu Roberto Carlos em Jerusalém
e minha Cat Power na Estação Paraíso.
Você é a tampa da minha panela, seja ela de inox, cobre, barro ou lápis de cor.
Parafraseando Tato Tucci:
nós três juntos e misturados para sempre
como a moqueca que você faz na nossa panela de barro das Paneleiras de Goiabeiras
em que tudo fica bem juntinho em camadas, mas peixe não anula o gosto do camarão, nem camarão do peixe, nem peixe do tomate, nem tomate da cebola.
definately a nossa the best panela, aliás.
Te amo, meu.
p.s. esse post nasceu por ocasião de um certo 52o- aniversário, a se realizar no próximo dia 3.

Leite condensado

Leite condensado cozido aos seis meses, está registrado no meu livro do nenê. Leite condensado cozido às quintas na casa da avó que agora é a bisa. Brigadeiro rosa da bisa com aquela casquinha que é sem igual. O creme amarelo de seu lendário doce de morango também leva o leite. Leite condensado com nescau na casa da Pó, que a gente comia na tigela em formato de sorvete, um brigadeiro nunca consumado. Brigadeiro quente no prato cheio de colher. Banana com farinha láctea e leite condensado que a Jô fazia pra mim e pro meu irmão depois do almoço. Picolé de leite condensado da Rochinha com uma pitada de areia na Praia das Cigarras. Leite condensado com granulado de chocolate na xicrinha de café na casa da nonna aos  domingos, que a Neri levava pra gente no quintal num intervalo da caça aos tatu-bolas. Calda de chocolate com leite condensado que a Mércia derramava em nossos sorvetes de creme nas noites de trabalhos escolares na casa da Anninha. Leite condensado com salada de frutas da rodoviária, Torta holandesa com leite condensado da cantina Trattoria, no Rio, onde Bob Dylan quase almoçou. Calda de leite condensado com limão que eu inventei de servir com bolo de chocolate e virou um clássico da casa. Pudim de leite condensado da chef do novo Conceição Discos que quero conhecer. Pudim de leite condensado o meu primeiro, provado pelo menino dele que era o único que estava em casa na hora. Brigadeiro de pistache do Delices de Maya. Baba de camelo do restaurante português do Campo Belo. E agora leite condensado com banana, aveia e linhaça, e se a banana estiver meio verde tanto melhor. Leite condensado não tem status, é tão absurdamente doce que arranha a garganta, é adulto de menos, precisa de água o horror, e qualquer chef de cozinha foge dele como o diabo da cruz. Mas está ligado às memórias gastronômicas mais amorosas e felizes da minha vida e eu prefiro ser mal requintada que mal agradecida. Tem algo de mágico nele, ele parece despertar o melhor de mim, me sinto mole, boba e completamente eu mesma – como o que a Madaleine do livro “Madame Pamplemousse” sentiu ao comer um pedaço de pão com patê. Em sua defesa legislativa, relembro: leite condensado nada mais é que doce de leite cru, um ponto antes. Sabia não? Leite condensado não nasceu moça, nem enlatado. E me comprometo a me aventurar na receita caseira que a Neide Rigo fez pro Paladar e postar aqui o resultado.

 

Sutilezas

 

desenho pst 2

Terminado o post sobre o Bento, releio e gosto dele, mas penso como, possuída pelo desejo de esmiuçar sua personalidade, acabei me esquecendo de falar sobre detalhes tão pequenos de nós dois. Sobre como amo o jeito de ele erguer as sobrancelhas ao buscar o peito quando aconchegado no meu colo. Como o cheirinho dele se mistura ao meu quando a gente fica bem juntinho e como esse sentimento de ser cheiro misturado me alegra quando estamos longe e penso nele. Sobre como quando ele era bem pequeno, depois de uma noite dormida num fiapo de cama para não movê-lo de lugar senti a força da maternidade em mim. Como meus olhos parecem duas jaboticabas molhadas quando estamos eu e B. em uma atividade em grupo, na praça ou na oficina de música, e as pessoas cantam todas juntas batendo palmas “bem-vindo, Bento, tatatá”. Como adivinho o quanto ele vai (ou não) dormir pelo ritmo da sua respiração. Sutilezas. Um pingo de leite condensado na salada de frutas. A calda de limão do bolo que ficou no ponto certo só por causa de uma bandida duma mexida mais forte com a colher. A mãe que passa em casa na hora certa sem anunciar. A tapioca, o bolinho de chuva e a canjica que ele prepara para ela de manhã mesmo depois de um desentendimento na madrugada. Ainda preciso escrever um post sobre os cafés da manhã deste homem, um escândalo! Sutilezas não estão numa receita de bolo, numa matéria sobre ser mãe, no altar de uma igreja porque estão na fronteira entre a ação e o sentimento e ação se descreve mas sentimento não. Como descrever a força exata que se deve empregar ao mexer uma calda, o amor que sentimos por um filho? Das sutilezas esquecemos, ignoramos, e está certo que seja assim, elas são a cola entre uma foto e outra do álbum de fotografias e é na sua capa invisível que mora sua força.

 Ilustração: pai do B. Por acaso mas sutilmente muito a calhar, fotografada com a ondinha do caderno junto.

 

o Bento

 

foto post B                                    meu novo doce preferido não tem açúcar nem é de comer

(muito embora seja mordido diariamente)

Seu nome é Bento

Bento nasceu debaixo da mesa da cozinha da casa onde mora, no penúltimo dia de 2013

O chão forrado por jornais do dia

Bento nasceu roxinho, sem pomada natural branca

Quando sua mãe o segurou no colo pela primeira vez, parecia que segurava um gigante e não um bebê pequenino: que menino redondo e forte!

Bento chorou por muitos minutos, o que disseram ser frio mas hoje acho que já era o seu jeito de saber expressar um sentimento com bastante entusiasmo

Bento sorriu no primeiro dia de vida, considerando que sorrisos não são feitos só de lábios, mas também de olhos e pontilhados

Gargalhou primeiro dormindo que acordado

Bento dormiu durante três meses em uma dessas almofadas para cachorro que se compra em petshops

Bento tem frescor de cachoeira, e nunca dormiu igual nenê em berçário

Bento tem sede de olhar, sentir, descobrir e, sobretudo, de fazer por si mesmo

Bento tem pinta de que vai ser um fazedor

Tia Célia disse: ele tem uma calma no olhar, mas certamente muito por fazer.

Bento tem a energia dos guerreiros

Tem joie de vivre, é fácil de ver

A vida lhe apetece

Foi feito por uma cozinheira lá dos céus que se distraiu na hora de adicionar alegria e colocou algumas xícaras a mais

Bento é um doce recheado de alegria colorida como aqueles doces de tabuleiro de Paraty e é coberto de beleza como as tarte do café refinado da Livraria das Marés

É fofo demais, como o bolo que jamais consegui fazer

Crocante por fora como pipoca caramelada, cremoso por dentro como merengue italiano

Bento é todo bonito, cobertura e recheio

*

Às vezes Bento se assusta e faz bico, às vezes Bento estranha e franze as sobrancelhas de um jeito muito adulto, como quando nasceu.

Às vezes Bento se irrita, sobretudo se não consegue fazer algo que quer fazer, como engatinhar ou puxar a alavanca de um brinquedo.

Bento não gosta de ficar muito tempo parado no mesmo lugar, nem que lhe apresentem um brinquedo seguido do outro.

Quando era muito pequeno expressava insatisfação falando. “Guim!”. Era a senha para “chega, quero sair daqui, quero dormir e etc”. Depois virou “Gu-guim”.

Agora quando está irritado solta gritinhos pra lá de grossos, “Êêê!”. Tédio ele mostra fazendo uma careta que parece uma risada torta, com os olhos fechados

Seus brinquedos preferidos são atualmente estes, em ordem que se alterna: abelha Zizi, tartaruga Rubens, garrafa d’água de 2L, colar vermelho de bolinhas, caminhão de madeira que transporta dados, mordedor azul, pato Cherloque, tampas em geral.

Até os três meses não podia ver um sling que abria o berreiro, hoje passear enrolado no pano é um de seus maiores prazeres (e de sua mãe)

Ficar peladão, tomar banho com plateia, pururum na barriga, luz azul do rádio, celulares, margaridas, rabo da Jovelina, espelhos de parede inteira, estantes do supermercado

o fazem feliz

Nossa nova felicidade é lamber frutas

*

Bento, como é natural dos primeiros filhos, está generosa e pacientemente ensinando sua mãe a ser mãe

É uma viagem desafiadora e prazerosa, como entrar no carro cheio de mapas e bagagens e ir se desfazendo dos mapas e das bagagens, se entregando a prazeres simples como o vento batendo no rosto ou o estalar do biscoito de polvilho na boca, as migalhas na roupa.

Presente. Ser mãe me fez entender que não existe passado nem futuro, só agora. E que nada é, tudo está sendo

E o real motivo da minha tatuagem no pulso direito

Ganhei um doce melhor que o chiclete da Clarice, tão lembrados? Porque não tem medo de ser infinito

 

*O primeiro post dedicado a você, meu filho

*Ilustração: Jotabê Medeiros, o pai. Baseada em uma foto real do filho dentro de uma cesta de vime 

 *Post finalizado e publicado provavelmente não por acaso no dia do aniversário de minha mãe 

Nasce um blog doce

Desde que meu filho nasceu entro no Calunga Cor de Rosa querendo me encontrar, não encontro, acabo passeando por lá como uma visitante e tenho vontade de deixar tudo como está.

É como observar de longe a casa onde moramos, com carinho mas sem vontade de entrar nela de novo. Observar a mesa posta com café da manhã, o bule, o bolo, a rosquinha, tudo permanece ali, tudo tão bom, mas já são dez da manhã e você já tomou café às sete. Sua fome é outra.

Tem um menino de nome Bento com dois olhos cor de brigadeiro e brilho de mel que me transformou em mãe. Como definiu nossa professora de dança, “ser mãe é um outro jeito de estar no mundo”.

Acabo de voltar de uma viagem a Paraty na companhia de meus dois rapazes onde comi mais doces do que a quantidade de dias em que fiquei lá.

Então, um pouco para entender como é esse novo jeito de estar na vida, um pouco porque me deu saudade de escrever sobre comida, um pouco porque essa saudade veio banhada do desejo de falar sobre os doces que já provei e ainda vou provar, um pouco porque escrever é minha água com açúcar e é preciso (man) ter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Blog condensado porque condensa tudo isso aí e já vou assumindo não sem vergonha que leite condensado de colher (gelado, servido na xícara de ágata com colher de café, roubado à noite da geladeira sob o olhar incrédulo do marido) é meu fraco.

Textos mais curtos do tamanho do meu tempo, menos rigorosos e possivelmente com qualidade mais duvidosa, mas altas doses de prazer, eis o que imagino que prevejo para o Condensado.

Saúde!